Geografias Corporais

Fotos: Ana Gilbert | Textos: Paulo Kellerman

Dança: Inesa Markava

Projeto em andamento com o grupo de pesquisa sobre movimento Te encontro lá no Cacilda / Pulsar Cia. de Dança | Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil.

 

Saber-se no corpo, ser o corpo, ser no corpo… o próprio e o do outro. Corpos humanos como materialidades diversas e criativas que se atualizam no dançar… corpos dançantes que interagem e se afetam mutuamente.

“Estende-me a mão. E diz: Não a agarres. Diz: Sente-a, apenas.
Aproximo a minha mão. As duas palmas tocam-se, e assim ficam: juntas.
Diz: Agarrar significa prender, não achas? Para sentir o outro basta tocar-lhe. Talvez tocar seja uma forma de agarrar com liberdade.
E sorri. Também sorrio. Enquanto as nossas mãos se tocam. Livres e sorridentes.”

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“Escuto o suave sussurro da respiração do meu corpo. Mas será que a minha alma também está a respirar? Como perceber se está viva, se não ouço nem sinto a sua respiração? Se não a sinto pulsar, se não sinto o bater do seu coração? Como saber o que faz respirar a alma?”

Narrativas de superação: um complexo cultural?

O Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência Assim Vivemos acontece bienalmente no Brasil desde 2003, e se configura como um espaço de produção de verdade sobre indivíduos com deficiência (dentre elas, a síndrome de Down). Pretende engajar a audiência em novas perspectivas sobre deficiência, problematizando a ideia de corpo normal como universal, por meio de filmes, atividades interativas, imagens e discursos institucionais. Ao se analisar as narrativas veiculadas nos filmes brasileiros sobre síndrome de Down (SD), apresentados em sete edições do festival, observou-se nos enredos a predominância de narrativas de superação, cujo foco é ultrapassar os obstáculos impostos pela deficiência. As narrativas de superação, também consideradas narrativas heroicas, surgem alinhadas  ao modelo de entendimento da deficiência conhecido como modelo social. De cunho social e político, esse modelo surge a partir dos anos 1970 no Reino Unido e nos Estados Unidos da América, com o intuito de questionar o modelo médico e seu discurso normalizador e intervencionista. A predominância desse tipo de narrativa desperta questionamentos sobre a dificuldade em se conviver com a diferença que cerca os corpos não-normativos e em admitir a variabilidade do humano. Argumenta-se que essa dificuldade aponta para um fenômeno psíquico coletivo que, sob o enfoque da Psicologia Analítica, pode ser denominado ‘complexo cultural’.

A noção de complexo cultural, desenvolvida a partir da teoria dos complexos de Carl G. Jung, busca entender como determinado fenômeno social se processa em grupos ou sociedades e a marca desse fenômeno na vida psíquica de seus membros. Em termos individuais, a ideia de complexo refere-se a um conjunto de representações em torno de um elemento comum, com determinada tonalidade afetiva e que se manifesta de forma repetitiva e autônoma. Em relação aos grupos sociais, o complexo cultural alude a representações coletivas, originadas historicamente a partir de experiências significativas de um grupo, as quais filtram as experiências dos indivíduos consigo próprios e com os outros. Ao se aplicar tal noção à questão da deficiência sob as lentes da superação, buscou-se explicitar aspectos da psique coletiva que, apesar do discurso vigente calcado em diferença e diversidade, reafirmam o arquétipo do herói apenas em seus aspectos luminosos de capacidade, atividade e expansão.

O enredo da superação valoriza a mente heroica, focada no enfrentamento dos problemas e no avançar confiante em si mesmo. As já citadas características de capacidade, atividade e expansão compõem justamente a base do modelo de normalidade que o festival deseja questionar. Entretanto, é preciso olhar não apenas a face luminosa do pensamento heroico, mas a sombra que toda luz carrega. Qual o outro lado da superação? Diante da perspectiva de avanço contínuo, positividade, velocidade e competitividade, implícitos ao pensamento heroico, aquilo que dele difere, e que sugere demora, retardo ou limite torna-se indesejável e desperta sentimentos de intolerância.

No âmbito coletivo, a ênfase exacerbada na superação reveste-se de uma intensa carga emocional que sinaliza a ativação de um complexo cultural, cujo núcleo aponta para um padrão arquetípico. Tal ênfase reverbera nos indivíduos e toca na dificuldade em se pensar o ser humano fora da moldura de razão e autonomia estabelecida pelo Iluminismo. A expressão disso é a tentativa simplista de minimizar, ou mesmo de eliminar, as marcas da SD que traduzem a instabilidade de uma identidade que escapa ao padrão vigente. Em certo sentido, busca criar uma imagem coesa do indivíduo que acomode os sentimentos de fragmentação e multiplicidade suscitados pela SD; em última instância, implica em uma diluição da diferença, do ser outro (apesar do discurso explícito de sua valorização). O ideal de conquistas aponta para a igualdade, para ser o mesmo, e se confunde com a inegável igualdade de direitos. Isso fica evidente nos filmes onde as pessoas com SD representadas aproximam-se do padrão de capacidade e autonomia considerado como desejável. As pessoas com SD de algum modo assimilam esse discurso e tentam, com algum esforço e sofrimento, corresponder à ideia que é construída sobre elas, em um movimento de reafirmação da inexistência de limites. A imposição dos limites trazidos pela deficiência permanece encoberta pelas sombras que cercam a vulnerabilidade e a mortalidade do herói. O sujeito racional autônomo (entendido como universal, ou seja, o mesmo) reafirma-se como único modelo possível, invalidando aqueles que dele diferem, considerados outros.

Em nome da desestigmatização e da inclusão de pessoas historicamente discriminadas, as narrativas criadas traduzem ambiguidade ao exaltar os aspectos de normalidade explicitamente questionados e transformá-los em metas a serem atingidas, levando, assim, a uma invisibilidade de necessidades especiais e até da própria materialidade da deficiência. A exacerbação da superação torna-se uma defesa maníaca contra a depressão, a qual é necessária para a vivência e a elaboração do luto e para o vislumbre de formas mais criativas de estar-no-mundo a partir das marcas e contornos da SD.

As fraturas se insinuam nos filmes, as palavras não ditas vazam nas entrelinhas dos discursos, as imagens inesperadamente se desdobram, esgarçando a uniformidade da superação e revelando múltiplas formas de viver com SD. Abafado pelo discurso desproporcionalmente luminoso da superação, surge o aspecto sombrio do herói, o qual aponta para a dificuldade em se lidar com a diferença cognitiva das pessoas com SD. Disto resulta o surgimento de dúvidas com relação ao processo inclusivo dessas pessoas, principalmente nas escolas, onde ainda impera o modelo competitivo baseado em acúmulo de conhecimento racional. Mais recentemente, nos dois filmes exibidos em 2015, uma discreta tendência dá mostras de que alguma mudança está a ser ensaiada. A redução da euforia da superação abre espaço para uma posição mais depressiva, com a constatação de certos limites intransponíveis e a reflexão sobre os rumos a serem tomados. Como encontrar novos modelos para essas pessoas que efetivamente traduzam a incorporação da variabilidade dos corpos humanos e o enfraquecimento da utopia do corpo normal universal? Ainda há mais perguntas que respostas. Contudo, é preciso ousar pronunciá-las, aceitar seus desafios e o desassossego que provocam para seguir adiante, em busca de uma outra forma de olhar e de entender o humano.

Porque “entender é um modo de olhar. Porque entender, aliás, é uma atitude.(Clarice Lispector).

 (Sinopse do trabalho apresentado no VIII Congresso Latinoamericano de Psicologia Analítica | Bogotá, Colômbia | Jul 2018)

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Singer T, Kimbles SL, editors. The cultural complex: contemporary Jungian perspectives on psyche and society. Hove and New York: Brunner-Routledge; 2004.

Jung CG. On psychic energy. Collected works, vol. VIII. London and NY: Routledge; 2015.

Hillman J. The virtues of caution. Resurgence [serial online] 2002; 213. http://www.resurgence.org/resurgence/issues/hillman213.htm (acessado em 17/Jul/2007).

Goodley D, Hughes B, Davis L, editors. Conclusion: disability and social theory. In: Disability and social theory: new developments and directions. New York: Palgrave Macmillan; 2012. p/ 308-316.

Gilbert ACB. Narrativas sobre síndrome de Down no Festival internacional de filmes sobre deficiência Assim Vivemos. Interface (Botucatu). 2017; 21(60):111-21.

Lispector C. Uma maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco; 1999. p. 228.

Diferença e Diversidade

Folhas-da-Janela

(foto: Peter Gilbert)

Práticas de diferenciação de ‘mesmo’ e de ‘outro’ são levadas a cabo cotidianamente, calcadas em representações comuns. Aquele que se apresenta como diferente do que é considerado como padrão é percebido como ‘estranho’ ou mesmo ‘desviante’ e, como tal, torna-se dissonante e ameaçador por gerar instabilidade nas referências organizadas que temos do mundo e por tensionar as cordas da imperfeição de cada um. Desta forma, o ‘outro’ não é apenas aquele que consideramos como desconhecido e distante, mas também aquele em cada um de nós que não é reconhecido como parte do ‘eu’.

Na atualidade, o tema da diferença e da diversidade está em destaque nos meios de comunicação, desde os avanços legais conquistados, por exemplo, por casais do mesmo sexo, até a violência cometida em nome de princípios religiosos, como no caso do Estado Islâmico, suscitando reflexões sobre práticas de inclusão e exclusão e sobre conceitos e preconceitos subjacentes a tais práticas.