Geografias corporais | Ensaio

Academia e arte. Brasil e Portugal. Dança, fotografia e literatura. Diálogos em torno de múltiplas corporeidades.

Projeto com o grupo de pesquisa sobre movimento Te encontro lá no Cacilda / Pulsar Cia. de Dança | Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil.

Geografias corporais: dança, corpo e deficiência | Ana Gilbert e Paulo Kellerman

Revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação | Seção Criação

Biblioteca SciELO Brasil e SciELO Saúde Pública

Resumo:

O projeto Geografias Corporais resulta de uma parceria entre dança, fotografia e literatura, entre artistas do Brasil e de Portugal, entre academia e arte. São narrativas imagéticas e literárias em torno do diálogo entre múltiplas corporeidades, com o intuito de desestabilizar a ideia de corpo normal como universal. Surge do interesse em analisar como corpos normativos e não normativos experienciam a dança como forma de habitar suas geografias corporais e de definir seus contornos físicos, psíquicos e discursivos na relação entre movimento e imobilidade. O trabalho foi realizado com participantes do grupo Te Encontro Lá no Cacilda, em 2018, configurando uma pesquisa artística. As narrativas de corporeidade produzidas ao dançar foram captadas e traduzidas em fotografias, configurando textos visuais que, posteriormente, somados a conversas entre fotógrafa e escritor, serviram de base para a criação de textos ficcionais.

(Foto: Ana Gilbert)

“Entro na sala e sorrio. Digo: Oi. Depois digo: Tudo bem? E continuo a sorrir.
(Penso: Sorrir será a melhor forma de espera, de adiamento, de suspensão?)
Olha-me e sorri. Levanta-se, aproxima-se lentamente. Depois, abraça-me.
Sinto estranheza. Não é fácil receber o abraço de uma pessoa desconhecida. Não é fácil abraçar uma pessoa desconhecida. Mas correspondo.
Foi assim que nos conhecemos. Apenas mais tarde percebi que abraçar é uma forma de comunicar; como se o abraço fosse voz, e cada abraço tivesse uma tonalidade específica. Tal como cada palavra pode ser dita com um timbre diferente.
Não o ouvi falar. Mas conheço a sua voz.”

(Paulo Kellerman)

Geografias Corporais

Fotos: Ana Gilbert | Textos: Paulo Kellerman

Dança: Inesa Markava

Projeto em andamento com o grupo de pesquisa sobre movimento Te encontro lá no Cacilda / Pulsar Cia. de Dança | Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil.

 

Saber-se no corpo, ser o corpo, ser no corpo… o próprio e o do outro. Corpos humanos como materialidades diversas e criativas que se atualizam no dançar… corpos dançantes que interagem e se afetam mutuamente.

“Estende-me a mão. E diz: Não a agarres. Diz: Sente-a, apenas.
Aproximo a minha mão. As duas palmas tocam-se, e assim ficam: juntas.
Diz: Agarrar significa prender, não achas? Para sentir o outro basta tocar-lhe. Talvez tocar seja uma forma de agarrar com liberdade.
E sorri. Também sorrio. Enquanto as nossas mãos se tocam. Livres e sorridentes.”

…..

“Escuto o suave sussurro da respiração do meu corpo. Mas será que a minha alma também está a respirar? Como perceber se está viva, se não ouço nem sinto a sua respiração? Se não a sinto pulsar, se não sinto o bater do seu coração? Como saber o que faz respirar a alma?”

Apresentação

 

Capa facebook

Seres humanos são feitos de palavras, nos diz o escritor José Saramago; são narrativas construídas no viver diário que no decorrer de sua finita existência recebem e transmitem um infinito legado de palavras. Ricardo Reis, heterônimo do escritor Fernando Pessoa, em uma de suas odes, presenteia-nos com uma frase que, de forma concisa e poética, resume nossa condição: “somos contos contando contos, nada” . Saramago, posteriormente, faz-lhe um pequeno acréscimo que, se por um lado acentua ainda mais a pequenez e a transitoriedade do ser humano às quais se refere Reis, por outro, aponta para aquilo que se revela como grandiosidade e permanência: “somos contos de contos contando contos, nada”. Como “contos ambulantes, contos feitos de contos”, continua Saramago, “vamos pelo mundo contando o conto que somos e os contos que aprendemos”. Este movimento traz implícita a presença (real ou virtual) de um ‘outro’ ao qual nos dirigimos ao narrar e que, ao escutar, participa da constituição do nosso ‘eu’. Dito de outra forma, narrar para o outro é também um narrar para nós mesmos, delineando contornos e imagens do que somos.

Se é certo que somos feitos de palavras, também somos feitos de imagens. Em um sentido mais amplo, somos feitos de imagens que constituem a própria psique, os fundamentos que possibilitam os movimentos da psicodinâmica. E em um sentido particular, somos feitos das  imagens de caráter representacional e das imagens que resultam da tessitura das palavras (escritas ou faladas), cujos elementos sensoriais, emocionais e imaginativos estão presentes nos gestos, nos discursos e na memória e vão além de uma mera descrição literal de algo.

A apreensão, o entendimento e a interpretação do significado de uma imagem só é possível se levarmos em consideração tanto um repertório interno individual, do qual essa e outras imagens são apenas uma ponta aparente, quanto um repertório externo, coletivo, circunstancial, que se refere não a este ou àquele indivíduo específico, mas ao repertório indireto de imagens que é constituído e atualizado culturalmente. Mulheres e homens que participam de uma mesma sociedade compartilham representações comuns, as quais servem para marcar o seu pertencimento a ela. Nesse processo, são reproduzidos, muitas vezes de forma subliminar, valores, crenças, estereótipos e padrões de normalidade, corpo e beleza que permeiam um determinado contexto sócio-político-religioso-cultural e que orientam as formas de olhar o mundo e a produção de subjetividades.

A literatura é uma produção humana e, como tal, é expressão desses olhares possíveis e das relações que estabelecemos com o mundo que nos rodeia. Os textos literários são capazes de despertar imagens; as palavras reunidas adquirem forma e permitem que tais textos possam ser ‘vistos’, seja de um modo mais estruturado, como cenas, seja menos estruturado, como cores, traços, formas e humores. Com uma linguagem essencialmente conotativa, eles têm a capacidade de provocar em nós uma infinidade de sensações e emoções para além de uma apreciação puramente intelectual; desta forma, são capazes de desestabilizar certezas e ativar outras formas de compreensão.

Este trabalho, que tem como foco contos e poemas contemporâneos, alimenta-se de fontes diversas, como as tradições das histórias sufis e dos contos de fadas. Alinha-se com formas de compreensão das imagens oriundas da Psicologia Analítica de Carl G. Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman que valorizam não apenas o que é visto, mas o modo como é visto. Pretende acessar o inesgotável ‘baú das palavras’ que nutre a nossa existência; e, sobretudo, leva em consideração o espaço/tempo da cultura em que vivemos, em seus aspectos relacionais dinâmicos e plurais, instigando o exercício constante de reflexão sobre o modo como percebemos o mundo e a nós mesmos por meio de lentes e filtros específicos e contingentes.

Em edições passadas, Conto & Poesia já abordou os seguintes temas: gênero, relação profissional de saúde-paciente, morte, entre outros. A próxima edição será dedicada ao tema ‘diferença e diversidade’ e o imbricamento eu-outro, resumido na pergunta ‘quem é o outro?’.