Geografias Corporais entrelaça fotografia e literatura; neste livro, imagens e textos conversam livremente, instigando novas leituras e sentidos. São histórias feitas de luz, silhuetas, contornos, movimento, ângulos, recortes, imagens, ideias, palavras. Este livro resulta de um projeto desenvolvido em 2018 com a Pulsar Companhia de Dança e o grupo de pesquisa sobre o movimento Te Encontro lá no Cacilda. Surgiu no âmbito de uma publicação acadêmica sobre arte, corpo, deficiência e as múltiplas corporeidades, com o intuito de questionar e desestabilizar a ideia de corpo normal como universal.
A forma como olhamos o mundo é contingente, isto é, moldada pela cultura e pelo momento histórico em que vivemos. Constantemente, lançamos mão de práticas de olhar (inclusive, quando desviamos o olhar) para dar sentido ao mundo que nos rodeia. Práticas de olhar não são objetivamente neutras, mas constituem práticas interpretativas críticas que se conectam a um determinado momento histórico-cultural que dita um modo de olhar. Tais práticas constituem também práticas sociais, uma vez que elas participam, junto com percepções dos outros sentidos, do estabelecimento e da negociação das relações entre as pessoas. Não se trata apenas do que vemos, mas de como vemos e de como percebemos aquilo que é veiculado em visualidades subjacentes.
Contudo, falar em experiências visuais não significa dizer que as imagens são, ou deveriam ser, separadas de outras experiências e representações, tais como a escrita e os discursos. Imagem e linguagem constituem formas de descrever, significar e entender o mundo. Em sua materialidade, o mundo não se apresenta a nós meramente refletido nas representações que são feitas dele: nós construímos múltiplas camadas de significados explícitos e implícitos (denotativos e conotativos, na acepção de Roland Barthes) que atribuímos ao mundo por meio das representações que fazemos das coisas (objetos, lugares ou entidades). Tais representações obedecem a regras e convenções que são ditadas por determinada cultura, não configurando, portanto, reflexos não-mediados da realidade. Em muitos casos, as regras são ‘esquecidas’ e aquilo que resulta de uma construção, passa a ser visto como ‘óbvio’ ou ‘natural’.
Formas de olhar o mundo estão presentes também na leitura de textos (verbais e não-verbais), ainda que haja diferenças entre a apreensão de imagens e palavras. As imagens evocam palavras, bem como as palavras suscitam imagens que vão ser lidas de acordo com as práticas de olhar vigentes. O processo de decifrar uma imagem envolve, além da própria imagem e dos significados dominantes a ela atribuídos, elementos, tais como, memórias pessoais, conhecimento e enquadramento cultural. Do mesmo modo, ao lermos um texto escrito, lançamos mão de experiências com textos anteriores para contextualizarmos o atual. Textos literários não se restringem às intenções do autor, mas são produzidos no ato da leitura, de acordo com perspectivas situacionadas dos leitores.
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“Entender é um modo de olhar. Porque entender, aliás, é uma atitude.” (Clarice Lispector, A maçã no escuro).
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Barthes R. Image – music – text. London: Fontana Press; 1977.
Sturken M, Cartwright L. Practices of looking: an introduction to visual culture. New York/Oxford: Oxford University Press; 2009.
Seres humanos são feitos de palavras, nos diz o escritor José Saramago; são narrativas construídas no viver diário que no decorrer de sua finita existência recebem e transmitem um infinito legado de palavras. Ricardo Reis, heterônimo do escritor Fernando Pessoa, em uma de suas odes, presenteia-nos com uma frase que, de forma concisa e poética, resume nossa condição: “somos contos contando contos, nada” . Saramago, posteriormente, faz-lhe um pequeno acréscimo que, se por um lado acentua ainda mais a pequenez e a transitoriedade do ser humano às quais se refere Reis, por outro, aponta para aquilo que se revela como grandiosidade e permanência: “somos contos de contos contando contos, nada”. Como “contos ambulantes, contos feitos de contos”, continua Saramago, “vamos pelo mundo contando o conto que somos e os contos que aprendemos”. Este movimento traz implícita a presença (real ou virtual) de um ‘outro’ ao qual nos dirigimos ao narrar e que, ao escutar, participa da constituição do nosso ‘eu’. Dito de outra forma, narrar para o outro é também um narrar para nós mesmos, delineando contornos e imagens do que somos.
Se é certo que somos feitos de palavras, também somos feitos de imagens. Em um sentido mais amplo, somos feitos de imagens que constituem a própria psique, os fundamentos que possibilitam os movimentos da psicodinâmica. E em um sentido particular, somos feitos das imagens de caráter representacional e das imagens que resultam da tessitura das palavras (escritas ou faladas), cujos elementos sensoriais, emocionais e imaginativos estão presentes nos gestos, nos discursos e na memória e vão além de uma mera descrição literal de algo.
A apreensão, o entendimento e a interpretação do significado de uma imagem só é possível se levarmos em consideração tanto um repertório interno individual, do qual essa e outras imagens são apenas uma ponta aparente, quanto um repertório externo, coletivo, circunstancial, que se refere não a este ou àquele indivíduo específico, mas ao repertório indireto de imagens que é constituído e atualizado culturalmente. Mulheres e homens que participam de uma mesma sociedade compartilham representações comuns, as quais servem para marcar o seu pertencimento a ela. Nesse processo, são reproduzidos, muitas vezes de forma subliminar, valores, crenças, estereótipos e padrões de normalidade, corpo e beleza que permeiam um determinado contexto sócio-político-religioso-cultural e que orientam as formas de olhar o mundo e a produção de subjetividades.
A literatura é uma produção humana e, como tal, é expressão desses olhares possíveis e das relações que estabelecemos com o mundo que nos rodeia. Os textos literários são capazes de despertar imagens; as palavras reunidas adquirem forma e permitem que tais textos possam ser ‘vistos’, seja de um modo mais estruturado, como cenas, seja menos estruturado, como cores, traços, formas e humores. Com uma linguagem essencialmente conotativa, eles têm a capacidade de provocar em nós uma infinidade de sensações e emoções para além de uma apreciação puramente intelectual; desta forma, são capazes de desestabilizar certezas e ativar outras formas de compreensão.
O trabalho se alinha com formas de compreensão das imagens oriundas da Psicologia Analítica de Carl G. Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman que valorizam não apenas o que é visto, mas o modo como é visto. Pretende acessar o inesgotável ‘baú das palavras’ que nutre a nossa existência; e, sobretudo, leva em consideração o espaço/tempo da cultura em que vivemos, em seus aspectos relacionais dinâmicos e plurais, instigando o exercício constante de reflexão sobre o modo como percebemos o mundo e a nós mesmos por meio de lentes e filtros específicos e contingentes.